segunda-feira, 5 de julho de 2010

Quem é Deus perante a filosofia - A a pergunta mais difícil do mundo

Reflexão sobre a divindade integra a filosofia

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução
Deus, segundo Michelangelo, no teto da Capela Sistina
Segundo Aristóteles (384-322 a.C.), a filosofia nasce de uma atitude de assombro do homem em relação às coisas do mundo, um estado de encanto e surpresa, que o leva a procurar explicações para elas. Desde que as explicações mitológicas (sobrenaturais) para a origem e o existir do mundo e das coisas deixaram de satisfazer aos primeiros pensadores, a filosofia se desenvolveu na Grécia antiga. Os filósofos buscavam outras explicações, de caráter natural, para o que viam ao seu redor.

Nessa procura pelas explicações, no entanto, nunca deixaram de esbarrar no "sobrenatural", em algo que estava além do visível, quando não do pensável. Por conseguinte, Deus - seja lá o que se entenda por esta palavra - foi sempre uma das grandes questões filosóficas ao longo dos últimos 2,5 milênios.

A reflexão sobre Deus é quase inerente à filosofia. Ao contrário da ciência, que, voltada para objetos específicos, pode dispensar interrogações sobre Deus e concentrar-se no seu alvo, a filosofia é mais ambiciosa e procura respostas para questões que, num certo sentido, as ciências nem precisam se colocar, para verificar leis ou dimensões dos fenômenos naturais (não custa relembrar que o radical de fenômeno, em grego antigo, significa "aparência").

Quatro linhas de raciocínio

Para a filosofia e para o ser humano, porém, Deus sempre foi um imenso ponto de interrogação. Quem ou o que é Deus? Como se pode ou não provar sua existência? Foram essas as questões fundamentais que os filósofos, a partir dos pré-socráticos, se colocaram. Ao serem respondidas - ao longo de mais de dois milênios da história da filosofia -, quatro linhas de raciocínio foram estabelecidas. Elas se desenvolveram de acordo com:

1) A relação de Deus com o mundo, considerando-se Deus como causa do mundo;
2) A relação de Deus com a ordem moral, identificando-se Deus com o Bem;
3) A relação de Deus consigo mesmo, pois, de acordo com as diversas concepções, ele pode ser um ou vários entes;
4) A relação de Deus com os homens ou quais os acessos do homem a Deus.

O primeiro motor

Examinando a primeira relação, nota-se que ela foi entendida de três modos diferentes. O mais antigo deles, encontrado em Anaxágoras (c. 500-428 a.C.), foi também desenvolvido por Platão (428-347 a.C.) e Aristóteles. Platão concebe Deus como "artífice do mundo", porém com um poder limitado pelo modelo que ele imita: o mundo das ideias ou das realidades eternas.

Já Aristóteles considera que Deus é o "primeiro motor" ao qual necessariamente se filiava a cadeia de todos os movimentos, pois tudo o que se move é movido por outra coisa. Não pode existir efeito sem causa.

No entanto, para Aristóteles, além de causa primeira, Deus é também a causa final que cria a ordem do universo. O filósofo compara o universo a um exército "que consiste de sua ordem e de seu comandante, mas especialmente deste último, pois ele não é o resultado da ordem, mas a ordem depende dele". (Note a sutileza do raciocínio.)

Panteísmo

O segundo modo da primeira relação não exclui o anterior, mas parte da proposição de que a natureza do mundo é um prolongamento da vida de Deus. Platão, por exemplo, chamava o mundo de "Deus gerado [por ele mesmo]". Essa concepção se concretiza no panteísmo (o prefixo grego pan significa "cada um, todos, totalidade") que cria um laço entre Deus e o universo: ambos se identificam, são concebidos como uma única realidade integrada.

O panteísmo adquiriu forma com os estóicos, mas amadureceu entre os neoplatônicos, com destaque para Plotino (205-270). Este filósofo considera o mundo como uma emanação de Deus, assim como ocorre com uma luz em relação a sua fonte. Para Plotino, Deus não só é superior ao mundo, mas também inexprimível em termos do mundo.

Ele só é apreensível ao êxtase místico. Por isso, ele não pode ser objeto de uma ciência positiva que determine sua natureza. Muito pelo contrário, só uma teologia negativa ajuda a compreendê-lo - a partir do que ele não é.

Concepções panteístas se manifestam não só em filósofos da Antiguidade, mas também da Idade Média, como Escoto Erígena (819-877) e Nicolau de Cusa (1401-1464); da Idade Moderna, como Espinosa (1632-1677) e Hegel (1770-1831), e de filósofos do século 20, como Alfred Whitehead (1861-1947) e Henri Bergson (1859-1941).

Cristianismo

Finalmente, há filósofos que consideram Deus como o "criador" do mundo, o Ser do qual provêm os outros seres. Esta visão advém do cristianismo e coloca a fé como coadjuvante da razão. Com Cristo, Deus se revelou ao homem e é a partir dessa crença (não racional) que a razão entra em cena para solucionar os problemas postos pela realidade.

Essa linha filosófica acentua a eternidade e a imutabilidade de Deus diante da temporalidade e da mutabilidade do mundo. Antes da criação não existia o tempo. Portanto, nem faz sentido falar em antes ou perguntar-se o que Deus fazia então, diz Santo Agostinho (354-430), em suas "Confissões" (o físico inglês contemporâneo Stephen Hawking, autor de "Uma Breve História do Tempo", de certa forma concorda com isso, pois considera que o tempo passou a existir após o Big Bang).

Contemporaneamente, desenvolveu-se a impressão de que a filosofia está ligada ao ateísmo ou, no mínimo, que ela se opõe aos dogmas cristãos. Essa impressão, porém, não tem fundamento histórico: filósofos como Kant e Hegel, por exemplo, estavam longe de ser ateus, da mesma maneira que Kierkegaard (1813-1855) foi cristão e filosofou a partir das crenças cristãs. Já Bergson, de origem judaica, aproximou-se do catolicismo ao final de sua vida.

Deus e a ordem moral

Quanto à segunda relação - Deus com a ordem moral -, também se podem distinguir três pontos de vista básicos.

1) Deus é a garantia da ordem moral no pensamento do iluminista alemão Immanuel Kant (1724-1804), filósofo que é um divisor de águas na história dessa disciplina. Para Kant, em termos metafísicos ou teóricos, no âmbito da razão pura, aquela que orienta uma ciência como a matemática, por exemplo, é impossível demonstrar a existência ou a inexistência de Deus.

"Deus é um postulado da razão prática [aquela que orienta a ação], pois torna possível a união da virtude e da felicidade, em que consiste o sumo bem que é o objeto da lei moral". Em termos mais simples: só de uma vontade perfeita, a divina, se pode esperar o bem supremo que a lei moral nos obriga a ter como objetivo de nossos esforços.

2) Muito antes de Kant, porém, os estóicos já identificavam Deus com a própria ordem moral, considerando Deus como Providência e Destino, uma entidade de ordem racional que compreende em si mesma, os eventos do mundo e as ações do homem. Essa visão também pode ser encontrada em Hegel que considera a história do mundo o plano da Providência.

3) O último ponto de vista, essencialmente cristão, coloca Deus como criador da ordem moral e, nesse sentido, atribui ao homem o livre arbítrio de segui-la ou não. Nesses termos, filosofia e teologia se confundem, mas as duas conseguem uma expressão perfeita, em termos éticos, nas palavras de São Paulo: "tudo é permitido, mas nem tudo me convém".

Politeísmo e monoteísmo

A terceira linha de raciocínio examina a relação de Deus consigo mesmo ou a de Deus com a Divindade. Dela decorrem as concepções politeístas e monoteístas. O politeísmo concebe Deus como diferente da divindade, assim como um homem é diferente da humanidade. Portanto, podem existir muitos deuses.

As doutrinas que admitem qualquer distinção entre Deus e a divindade têm em mente que esta pode ser compartilhada por muitos entes. O próprio Aristóteles, o da "causa primeira", acreditava que a demonstração da existência de um primeiro motor servia também para a existência de tantos motores quanto são os movimentos das esferas celestes, que eram 47 ou 55, respectivamente ao ponto de vista de dois astrônomos em quem o filósofo acreditava.

Além disso, é interessante notar que Plotino - aquele que falava acerca de um Deus que se emana no mundo - não identificava unidade com unicidade. A unidade também contém a multiplicidade para o sábio neoplatônico. Premissa maior: Deus é uno. Premissa menor: Todas as coisas dele emanam. Conclusão: Deus não é único. Um silogismo perfeito.

Também não se pode deixar de destacar o fato de o politeísmo não se restringir ao paganismo da Antiguidade. O panteísmo de filósofos modernos ou contemporâneos não deixa de ser um politeísmo. O empírico escocês David Hume (1711-1776) atribuiu valor positivo ao politeísmo, que é um verdadeiro obstáculo à intolerância religiosa. Se há muitos deuses na minha religião, seria uma contradição eu me opor aos deuses de outras crenças religiosas (repare na atualidade dessa ideia, num mundo como o nosso em que o fanatismo se transforma em terríveis espetáculos terroristas).

São Tomás de Aquino

Por outro lado, quando se identificam Deus e divindade, sendo esta uma característica que só se pode atribuir ao próprio Deus, eis o monoteísmo, advogado pelo filósofo cristão Tomás de Aquino (1227-1274), na "Suma Teológica", uma obra célebre. Segundo São Tomás, também chamado de "doutor angélico", aquilo que torna algo singular, único, não é comunicável a outras coisas.

Mais ainda, aquilo que torna Sócrates homem não se confunde com aquilo que torna Sócrates somente o homem que ele, e mais ninguém, é. Do contrário, não poderia haver mais de um Sócrates ou mais de um homem. Ora, esse é precisamente o caso de Deus. Além disso, como a divindade é incomunicável, ela não pode ser compartilhada por mais de um Deus. Conclusão: há um só Deus (Sua trindade é um mistério impenetrável).

Essas considerações sobre o monoteísmo e o politeísmo devem levá-lo a filosofar um pouco: politeísmo não é a manifestação de mentalidades primitivas, em termos culturais, como se costuma pensar. Ele se apresenta mais como uma alternativa filosófica legítima, que talvez ajude a inovar o conceito de Deus.

O acesso a Deus

Finalmente, na quarta relação - do acesso do homem a Deus - também se distinguem três pontos de vista: a) o conhecimento de Deus é alcançado pela iniciativa do homem, através da filosofia, da especulação racional sobre Deus; b) o conhecimento só se dá através da revelação divina; c) a revelação é a conclusão do esforço do homem para chegar a Deus.

Sem dúvida, o primeiro ponto de vista é o mais filosófico, enquanto os outros são mais religiosos. Mesmo assim, o princípio de que a revelação não anula nem inutiliza a razão está na base de toda a filosofia escolástica da Idade Média. No Renascimento, a revelação inspira e sustenta a racionalidade. Fé e razão colaboram entre si, não são uma antítese.

No séculos 16, 17 e 18, foi feita progressivamente uma distinção entre a ideia de revelação histórica e revelação natural, que ocorre através da razão. No Romantismo, a revelação é uma manifestação de Deus na realidade natural e histórica, como pensaram Hegel e Schelling (1775-1854). O filósofo e político italiano Vincenzo Gioberti (1801-1852) considera como base do conhecimento a intuição, que, segundo ele, é a revelação imediata de Deus ao homem.

A cifra da transcendência

Contemporaneamente, o ateísmo ganhou força, mais no âmbito científico do que filosófico. Grande parte das reflexões filosóficas atuais, quando não cristãs, têm caráter panteísta. Apesar de se tratar de um conceito datado do século 18, há quem fale mais recentemente num panenteísmo, uma conciliação entre o monoteísmo e o panteísmo, que admite que tudo o que existe, existe em Deus, consistindo em revelação e realização de Deus.

Para terminar, é bom lembrar de linhas de pensamento que põem ênfase na transcendência de deus. Para Karl Jaspers (1883-1969) a inatingibilidade de Deus, o fracasso inevitável do homem em sua tentativa de alcançar a transcendência é a única revelação possível. Esta é o que ele chama de a "cifra" da transcendência, o símbolo sob o qual o transcendente pode estar presente na existência humana, sem adquirir caracteres objetivos, e, simultaneamente, sem fazer parte da nossa vida subjetiva.

sábado, 3 de julho de 2010

A vida de albert einstein!

Introdução sobre Albert Einstein










por exemplo, que tempo e espaço não podem ser vistos como absolutos. Tanto um quanto o outro são relativos. Além disso, o tempo está intrinsecamente ligado ao espaço, a ponto de ser uma quarta dimensão dele. Suas ideias foram tão contrárias ao senso comum do mundo científico do início do século 20 que elas determinaram o fim da física como até então era conhecida e anunciaram o início de uma nova era: a da física quântica e da energia nuclear.
A trajetória que levou o gênio criativo de Einstein a construir teorias revolucionárias sobre o universo começou na sua infância. Ao ver uma bússola com o pai, Bertl, como era chamado o pequeno Einstein por sua família, ficou encantado com o fenômeno do magnetismo, aquela força invisível que viajava pelo espaço para atrair o ponteiro da bússola sempre para o Pólo Norte. Esse encanto pela ciência o acompanharia pelo resto da vida. Ele motivaria seus insights que nos legaram as teorias da relatividade e a famosa fórmula (E=mc²) que mostra a matéria como “energia solidificada”, entre outras surpreendentes descobertas.



Einstein

A juventude de Albert Einstein

Einstein nasceu em 14 de março de 1879 em Ulm, uma pequena cidade do sul da Alemanha. Sua mãe era culta e gostava de tocar violino, gosto que passou para o pequeno Albert. Seu pai era afável e sociável, mas fracassado no mundo dos negócios. Os insucessos de suas lojas e indústrias eram responsáveis pela vida espartana da família. Único judeu em uma sala de aula de uma escola católica, numa época em que o anti-semitismo começava a se intensificar, Einstein se entediava com os estudos e com a postura autoritária dos professores, reflexo do estilo “sangue e ferro” do governo Bismark na Alemanha.

Um dos mais famosos cientistas do século 20, homenageado em um selo dos EUA.
© istockphoto.com / Peter Spiro
Einstein se tornaria um dos mais famosos e importantes cientistas da história. Aqui ele é homenageado em um selo norte-americano.

Sua aversão à maior parte das disciplinas escolares lhe rendeu a fama de ter dificuldades no aprendizado. Mas naquilo que lhe interessava, como física e matemática, mostrava sua inteligência precoce e revelava-se um autodidata. Consciente dessa capacidade, mostrava-se às vezes convencido e insolente.  A filosofia era outro campo do conhecimento que agradava muito ao jovem Einstein. Apresentado à complexa obra metafísica de Immanuel Kant, provavelmente como um desafio a sua precoce genialidade, descobriu nela uma construção de excepcional profundidade que buscava explicar absolutamente tudo. Aquilo o influenciaria pelo resto de sua vida.

Apesar da vontade do pai para que estudasse engenharia e ingressasse nos negócios da família, Einstein contou com a compreensão paterna ao demonstrar que aquilo não o interessava. Sua vida estudantil manteve-se errática. Alcançava excepcionais notas em matemática e física, mas era de forma proposital um fracasso nas demais disciplinas. Recusava-se a seguir instruções e preferia usar seus próprios métodos, mesmo quando fazia experiências em laboratório.

Com o apoio financeiro dos parentes de sua mãe, Einstein foi estudar na Suíça. Em 1895, começou a frequentar a Politécnica de Zurique, a melhor escola técnica da Europa central. A atmosfera intelectual, a liberdade para o debate e o ar cosmopolita de Zurique ajudaram Einstein a desenvolver seu brilhantismo e o aproximaram das ideias socialistas. Nesse período, formou um círculo de amigos íntimos, que como ele eram estudantes de matemática e física obcecados pelas questões fundamentais da ciência. A capacidade genial de Einstein foi logo percebida pelos colegas que o ajudavam de forma que ele pudesse acompanhar o curso.

Entre os amigos de Einstein em Zurique havia uma moça, aliás a única da turma. Mileva Maric era sérvia e se tornou a primeira mulher com quem o namoradeiro Einstein podia discutir seus temas mais complexos de física. Às duras penas, conseguiu se formar em 1900. Para escapar do serviço militar na Alemanha, permaneceu na Suíça, onde obteve sua cidadania, mas teve enormes dificuldades para arranjar emprego. Enquanto trabalhava como professor temporário em uma escola próxima a Zurique, tornou-se amante de Mileva. Ao fim do emprego temporário descobriu que ela estava grávida. Desempregado e sem dinheiro, não teria como se casar e sustentá-la. Mileva então voltou a morar com os pais, onde deu a luz a uma menina. O destino de Lisa, a primeira filha de Einstein é nebuloso. Ao que tudo indica, ela foi adotada pelos pais de Mileva, mas desapareceu sem deixar vestígios.

Enquanto isso, Einstein conseguiu um emprego no Escritório de Patentes em Berna, na Suíça. Um ano após o nascimento de Lisa, Mileva deixou sozinha a casa dos pais e foi se encontrar com Einstein. Eles se casaram em 1903 e, no ano seguinte, nasceu Hans Albert. Naquele momento, Einstein produzia ensaios que apesar de não serem excepcionais traziam alguns dos insights que revolucionariam a física. Suas ideias sobre a luz, o espaço e o tempo não se enquadravam nas leis da física clássica desenvolvidas por Newton dois séculos antes. Einstein começava a elaborar as teorias que mudariam nossa forma de

Einstein: a descoberta de um gênio

Einstein
Imagem cedida 2006 SmugMug, Inc.
Em 1905 foram publicados quatro artigos escritos por Albert Einstein que transformaram o mundo. O primeiro deles era considerado pelo próprio autor “bastante revolucionário”. Em “Sobre um ponto de vista heurístico acerca da produção e da transformação da luz”, Einstein, em dezessete páginas, transformou toda a compreensão da natureza da luz e explicou certas anomalias surgidas na física clássica. Sua argumentação físico-matemática preparou o terreno para a teoria quântica.

O segundo artigo foi o que teve a menor importância entre os quatro. Nele, Einstein delineia um método para determinar o tamanho de uma molécula. O terceiro artigo partia de um tema aparentemente pouco promissor – “Sobre o movimento de pequenas partículas suspensas em um líquido estacionário, segundo a teoria cinética molecular do calor” – para mudar os paradigmas da ciência. Numa época em que se tinha ainda dúvidas no meio científico sobre os átomos, Einstein ousou provar a existências de moléculas invisíveis nesses dois artigos.

A partir dos insights que resultaram nos três primeiros artigos, Einstein produziria um quarto – e provavelmente o mais famoso deles. Ele tinha 26 anos de idade, era pobre e um funcionário público dos escalões inferiores à beira de um colapso mental e físico por conta de suas reflexões sobre complexos problemas e fórmulas. Após o que ele relatou como uma noite de torpor na qual uma tempestade explodiu em sua cabeça, produziu um artigo de 31 páginas chamado “Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento”. Nele estava contida a teoria da relatividade especial.

Isaac Newton havia declarado que tempo e espaço eram absolutos, sem qualquer relação com coisas exteriores. Segundo a física clássica, o tempo flui de modo equitativo e o espaço permanece sempre semelhante e inamovível. Einstein mudaria essas certezas. Para começar, ele propõe que não há nada que se possa chamar de movimento absoluto. Isso significa que também não existe ausência absoluta de movimento. Toda velocidade é relativa ao referencial específico que a define. Assim, se há movimento relativo, o tempo e o espaço se tornam relativos. Com uma exceção. A velocidade da luz, que é sempre a mesma, qualquer que seja a referência.
A fórmula da teoria da relatividade, a mais famosa de Einstein.
© istockphoto.com / Jose Antonio Santiso
A fórmula da teoria da relatividade, a mais famosa de Einstein

Einstein, com sua teoria da relatividade, mostrava entre outras descobertas que não existe tempo absoluto. O tempo somente se aplica ao local em que está sendo medido. Outro fruto da teoria da relatividade foi a fórmula E=mc², onde E é energia, m é massa e c é a velocidade da luz. Com ela, ele pressupunha que a matéria é energia solidificada e que, se a massa pudesse de algum modo ser convertida em energia, uma pequena quantidade de massa liberaria uma excepcional quantidade de energia. Mais para a frente Einstein incluiria a gravidade na sua teoria e criaria a teoria da relatividade geral, que prevê que a matéria pode fazer com que o espaço se curve. Publicado em 1916, o artigo “O fundamento da teoria da relatividade geral” mostrava em sua descrição dos fenômenos do universo que o espaço se tornava curvo e o tempo também, afinal ele era uma quarta dimensão em um contínuo espaço-tempo (para entender a teoria da relatividade desenvolvida por Einstein, clique aqui e leia o nosso artigo).

Einstein mudou a forma de se fazer ciência. Até então ela era basicamente empírica. Mas ele inverteu esse processo. Teórico convicto, ele considerava o método de construir teorias a partir das evidências obtidas nos experimentos muito lento e prosaico. Sua mente preferia avançar e deixar que no futuro a experimentação comprovasse suas teorias. E isso realmente aconteceu.

Após o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a comprovação das principais ideias de Einstein na observação de fenômenos espaciais, o mundo reconheceu sua genialidade. Àquela altura já estava separado de Mileva, e seu descuido com a própria aparência imortalizaram a imagem do gênio distraído. Figura pública ministrando conferências por toda a Europa e Estados Unidos, era sempre recebido como herói. Sua prima Elsa, com quem se casara, cuidava de manter uma certa ordem em sua vida pessoal. Em 1921, ganhou o Prêmio Nobel e com a ascensão do nazismo na Alemanha, mudou-se para os Estados Unidos. Lá, dedica-se à pesquisa pura no recém-criado Instituto de Estudos Avançados de Princeton.

Uma lenda viva da ciência, ele se tornou mais recluso após a morte de Elsa em 1936. Em 1939, ao saber que sua fórmula E=mc² levaria os alemães a construir a bomba atômica, alerta o presidente Roosevelt, dos EUA, que à revelia de Einstein inicia o Projeto Manhattan que resultaria nas bombas atômicas lançadas no Japão em 1945. Chocado, envolveu-se em campanhas pacifistas e suas simpatias ao socialismo o colocaram na lista de investigados do FBI na era do macartismo. Cansado, e distanciado da física quântica, morreu em 18 de abril de 1955, aos 76 anos, enquanto dormia no Princeton Hospital, onde estava internado após sofrer um colapso. Havia confessado que se sentia um estranho no mundo.

Einstein e a relatividade
Reprodução
Este artigo é uma resenha do livro “Einstein e a Relatividade em 90 minutos”, de Paul Strathern, da coleção “Cientistas em 90 minutos” da Jorge Zahar Editor, publicado em 1998.
compreender o universo. 
 
Anaxímenes de Mileto (585 – 525 a.C.) é considerado o terceiro e último importante filósofo da escola jônica antiga. Era filho de Eurístrato e foi durante um tempo discípulo de Anaximandro. Nasceu quando Anaximandro tinha 25 anos, possivelmente no ano 585 a.C., no mesmo ano do eclipse predito por Tales de Mileto. Assim como outros pré-socráticos, a maior parte de seus estudos e de escritos se perdeu. Acredita-se que um dos terremotos que destruiu Mileto tenha sido o responsável pelo desaparecimento de grandes e de importantes obras pré-socráticas.

Embora pouco se saiba sobre a vida de Anaxímenes, ele é, com frequência, citado por diversos outros pensadores gregos posteriores por afirmar e por defender que pneuma (o ar) deveria ser considerado o princípio organizador do universo (a arcké), ou seja, o elemento básico que tudo formou.

Mileto ainda era uma florescente cidade independente e liderava as cidades da confederação jônica, quando Anaxímenes nasceu. Sardes, cidade e capital do reino Lídio, fora conquistada mais cedo pelos persas em 546 a.C. e também mais cedo foi destruída. Mileto, ainda por algum tempo, continuou sendo uma importante cidade próspera, além de uma importante rota comercial, mesmo quando passou ao domínio persa instalado ali instalado.
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Importante e dedicado estudioso das relações meteorológicas, Anaxímenes foi o primeiro a considerar que o satélite natural da terra, a Lua, recebe sua luz do Sol. Assim, conclui-se que a Lua é um astro sem luz própria. Foi companheiro de Anaximandro (610 – 546 a.C.) e com ele parece ter desenvolvido importantes pesquisas e debates. De certa maneira concordava com a teoria de Anaximandro (o ápeiron), entretanto, defendia que o ápeiron não era indefinido, por isso, Anaxímenes sugere pneuma como arcké, pois apesar de invisível era, de certa maneira, definível.

Nele a substância primordial ordenadora do universo volta a ser uma coisa determinada, como em Tales, por exemplo. Era um grande admirador da natureza. Dizem que uma de suas características era a perspicácia, ou seja, a capacidade de observar detalhes, muitas vezes desapercebidos pela maioria das pessoas.

Como meteorologista, Anaxímenes teve a oportunidade de perceber a evaporação da água, sua ascensão e sua condensação nos céus. Ali o ar mais frio transformava-se em água novamente, segundo ele. O ar já era visto como sopro de vida, como espírito (pneuma). Homens e animais precisam de ar para viver. Os ventos trazem as chuvas e as levam embora, dão movimento aos barcos e ás ondas do mar. O ar em movimento concede voracidade às tempestades. Segundo ele, pneuma controlava o curso da vida. Quando nos faltava o fôlego, vínhamos a óbito. Na morte paramos de respirar, já que a vida do ar deixava nossos corpos. Assim, Anaxímenes insiste em afirmar que o ar é, sem dúvida, o elemento ordenador e coordenador do universo.

Por inúmeras razões, Anaxímenes propõe o ar como elemento fundamental da natureza, a partir de cuja complexa e extraordinária ação (movimento) se formam todas as coisas, e no qual elas todas se decompõem (voltam a ser pneuma). A idéia fundamental continua a mesma, de que tudo se forma a partir de UM ELEMENTO PRIMEIRO, o qual subsiste por si só e é, consequentemente, divino. Neste caso, o divino não representaria mais a multidão de deuses dos gregos.

Alguns pensadores chegam a afirmar que estes pensadores acabam por defender, em certo grau, um monoteísmo filosófico, eliminando a origem ocasional do universo e o estabelecendo como fruto de um elemento vivo, eterno, ilimitado e inteligível.

Por isso podemos interpretar a filosofia de Anaxímenes como uma espécie de síntese entre Tales e Anaximandro. O racionalismo de Anaximandro é um racionalismo aberto pois a transformação de umas coisas em outras só é possível por meio do ápeiron. Em Anaxímenes assistimos novamente o racionalismo cercado do grupo de transformações. O ar como arché substitui a água de Tales, mas por sua vez incorpora algumas das propriedades do ápeiron de Anaximandro. Em Anaximandro o arché é infinito e indeterminado. Para Anaxímenes o ar, como arché, é um ápeiron (infinito), mas determinado.

Para ele, a Terra se encontrava suspensa no Cosmo pela força controlado do AR (pneuma). O Ar rarefeito possibilitava o fogo, já o fogo, quando controlado, permitia a solidez de outros elementos, como a massa de pão ou de bolo que conhecemos. Sua liquidez se solidifica sem se destruir quando exposta à uma temperatura adequada e por tempo adequado.

Em outras ocasiões suas opiniões se acercam mais da verdade que as de seu mestre Anaximandro. Assim mantém a tese de que a lua refletia a luz do sol, que os eclipses do sol e de lua acontecem quando estes corpos são ocultados por outros corpos celestes. Já o Sol se movimenta em torno da Terra e, ao ser escondido pela partes mais altas do planeta, permite o a origem e a distinção entre o dia e a noite. Seu movimento pode ser calculado e compreendido por meio de relógios de sol (durante o dia), tendo a noite o mesmo espaço de tempo diurno.

ANAXIMANDRO DE MILETO (610 - 546? a.C.)
Anaximandro foi discípulo de Tales. Morreu aos 65 anos, aproximadamente. É considerado o segundo filósofo da escola jônica, natural de Mileto. Foi geógrafo, matemático, astrônomo e político. Escreveu um livro intitulado “Sobre a natureza” que infelizmente se perdeu. Autor do primeiro mapa da história e exímio estudioso da astronomia.

Afirmou que a origem de todas as coisas seria o ÁPEIRON, o infinito. Corresponderia a uma força ilimitada, atemporal e incorpórea. Tudo teria surgido do infinito, do ápeiron. Diante dele, nosso mundo se dissolveria, como um grão de areia em todo o oceano. A Terra seria apenas um mundo dentre muitos outros. Ao contrário de Tales, ele não destacou a origem de tudo (arcké) como um elemento material, como a água.

O ÁPEIRON é eterno e indivisível, infinito e indestrutível. O princípio é o fundamento da geração de todas as coisas. Este princípio elaborou inúmeros elementos e os combinou entre si, colocando-os em ordem, dando origem aos mundos, permitindo a superação e a organização do caos, permitindo o aparecimento ordenado de virtudes, da vida, de fenômenos, de seres.

O ÁPEIRON ou princípio indeterminado, não poderia ser definido pelos homens, mas seu movimento e suas ações poderiam ser percebidos pelos nossos sentidos e pelo nosso intelecto. Assim como não vemos o ar, mas podemos reconhecer sua existência e seu valor para a vida. Este princípio se encontra em movimento perpétuo, por isso, o nascimento e a morte são constantes, o aparecimento e o desaparecimento são permanentes e, ainda permite-nos criar e destruir coisas.

Desse movimento teriam surgido os elementos visíveis e as primeiras qualidades, ou seja, “o quente” e “o frio”, originando o fogo e o ar. Em seguida, viriam as qualidades "seco" e "úmido", originando a terra e a água. Os seres vivos teriam nascido da evaporação da água submetida à luz e ao calor do sol. Em Anaximandro uma complexa força ilimitada e vital, tudo faz surgir, entretanto, ainda não poderíamos saber exatamente como tudo veio a ser. Para ele a vida passa por um processo de evolução.
Divergências à parte, a principal contribuição de Anaximandro foi ter desenvolvido um processo de abstração, ou seja, imaginou um princípio gerador do universo que não estivesse visivelmente presente no mundo sensível. Através dos cinco sentidos, o homem percebe os fenômenos naturais, os seres e os objetos da natureza, as outras pessoas e a si mesmo, e os objetos produzidos pela humanidade.

Essa forma de entrar em contato com o mundo, de "conhecê-lo", não exige nenhum esforço de pensamento. Os animais também têm essa capacidade, de que, aliás, depende a sobrevivência das espécies. Nós, os seres humanos, entretanto, dependemos de nossa capacidade mental para entender e para se aproveitar daquilo que a natureza nos oferece. Conseguimos, com isso, ver além da aparência das coisas, alcançando uma realidade que não é material. A esta realidade imaterial, chamaremos de realidade abstrata.

Além de tudo, Anaximandro foi político, professor, administrador e construtor de relógios solares. Fez a previsão de um terremoto. Anaximandro foi até a Lacedemônia e aconselhou o exército espartano a abandonar a cidade, por causa de um grande terremoto que estava por vir. A cidade inteira foi destruída. A previsão do terremoto de Anaximandro por sua experiência sobre este tipo de fenômeno. Sabe-se, atualmente, que Mileto se encontra dentro de uma zona sísmica.

Anaximandro foi o primeiro a definir um perímetro da terra e do mar. Além de construir um mapa da terra habitada, que foi aperfeiçoado posteriormente por Hecateo de Mileto. Seu mapa-múndi foi um desenho circular, em que as regiões conhecidas (Ásia e Europa) formavam segmentos aproximadamente iguais e todo ele rodeado pelo oceano. Os conhecimentos geográficos de Anaximandro se baseavam nas notícias de navegantes que eram abundantes e variadas em Mileto, grande e importante centro comercial e de colonização no mar Egeu.

Tales de Mileto


TALES DE MILETO (624-546? a.C.)

Os escassos relatos biográficos sobre Tales afirmam que ele, além de se dedicar à filosofia, atuava também na política, na agronomia, na matemática, na astronomia e em outros saberes, trabalhando para que as cidades da Jônia se unissem em defesa de seus interesses comuns. Tales foi também um engenheiro hábil. Alguns fragmentos indicam que ele realizou, entre outros, projetos para desviar o curso de rios, para favorecer a irrigação e a navegação, contribuiu com conhecimentos e cálculos matemáticos que favoreceram a construção de barcos, de prensas de alimentos. Dedicou-se, ainda, à astronomia: segundo alguns historiadores, ele teria previsto um eclipse solar que aconteceu em 585 a.C.


Compreende-se que o pai de Tales teve importante papel na vida desse jovem. Ofereceu-lhe a oportunidade de estudar diversos saberes, tanto em Mileto quanto em outras regiões e nações. A família de Tales enriqueceu-se às custas do comércio de sal. A família possuía uma pequena “empresa de dessalinização e de refino de sal”, produto de grande valor comercial. O produto era utilizado na alimentação de homens e de animais, na medicina, na arte cosmética, nas oferendas dos templos, na conservação de carnes e de outros alimentos e, por causa de sua importância, a família acumulou bens e riquezas. Acredita-se que o pai de Tales tinha certa influência na política e foi a ponte de acesso de Tales ao mundo da administração pública.

Alguns trechos encontrados posteriormente aludem às atitudes de Tales e relacionam as atitudes do jovem pensador a uma súbita multiplicação dos bens da família. Sua genialidade (sophia = sabedoria) se manifestava em ações concretas. Seu saber não era teórico apenas. Tales percebeu que era vantajoso correlacionar o máximo de dados possíveis (informações, saberes, conhecimentos). Certo dia percebeu que o desvio de um rio contribuiu com a fertilização do solo de determinada região, local onde o plantio de Oliveiras era a principal atividade agrícola. A irrigação não trazia somente água para o local, mas também, nutrientes e solo fertilizado das margens do rio, o que contribuiu com um enriquecimento da área fértil e um possível melhoramento da safra de azeitonas.

Esta previsão, agrícola-comercial, levou Tales a providenciar inúmeras prensas de azeitonas. Quando chegou o tempo da colheita, os agricultores tiveram uma surpresa, mas não tinham equipamentos para aproveitar a grande quantidade de azeitonas produzidas. Tales se ofereceu para comprar as “sobras” e com as prensas que possuía (previa e deliberadamente adquiridas) produziu uma grande quantidade de azeite, especiaria de grande valor comercial. O azeite era utilizado também na culinária, na medicina, na cosmética, nos templos, na iluminação e na conservação de alimentos, ampliando suas atividades econômicas e que proporcionaram a multiplicação dos bens e das riquezas da família.


Um dia, Tales foi surpreendido pelo interesse de algumas pessoas para aprenderem sobre sua forma de compreender a realidade e de associar os conhecimentos. É movido pelo interesse desses e abre uma escola, isto é, passa a dar aulas particulares sobre aquilo que defende. Em uma de suas aulas alguém lhe pergunta sobre o que ele diria ser o fundamento de todas as coisas. Tales, baseado em suas experiências e vivências, afirma que okeanos (a água) seria o responsável pela origem de tudo. Segundo ele, o quente convive com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes, quando umedecidas, brotam; na natureza a importância da água é indiscutível. A água está cheia de vida e transmite vida para tudo.

Tales considerava a água quase como uma divindade, como se fosse a própria vida. A água estaria presente em todas as coisas e, portanto, todas as coisas estariam cheias de vida. Tales é considerado o fundador da filosofia cosmológica, por ter sido o primeiro pensador a procurar responder, filosoficamente, como o mundo surgiu e o que explicaria a sua existência. Cosmos, palavra grega que significa mundo, designa também, de forma mais ampla, o universo conhecido pelo homem.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O que é filosofia ?

O que é filosofia?

Filosofia (do Grego Φιλοσοφία: philos - que ama + sophia - sabedoria, « que ama a sabedoria ») é a investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem.

como surgiu a filosofia?

Surgiu nos séculos VII-VI a.C. nas cidades gregas situadas na Ásia Menor. Começa por ser uma interpretação des-sacralizada dos mitos cosmogônicos  difundidos pelas religiões do tempo. Não apenas de mitos gregos, mas dos mitos de todas as religiões que influenciavam a Ásia menor.

Os mitos foram, segundo Platão e Aristóteles, a matéria inicial de reflexão dos filósofos. Os mitos tornaram-se um campo comum da religião e da filosofia, revelando que a pretensa separação entre esses dois modos do homem interpretar a realidade não é tão nítida como aparentemente se julga.

Modernamente, é a disciplina ou a área de estudos que envolve a investigação, a argumentação, a análise, discussão, formação e reflexão das ideias sobre o mundo, o Homem e o ser. Originou-se da inquietude gerada pela curiosidade em compreender e questionar os valores e as interpretações aceitas sobre a realidade dadas pelo senso comum e pela tradição.

As interpretações comumente aceitas pelo homem constituem inicialmente o embasamento de todo o conhecimento. Essas interpretações foram adquiridas, enriquecidas e repassadas de geração em geração. Ocorreram inicialmente através da observação dos fenômenos naturais e sofreram influência das relações humanas estabelecidas até a formação da sociedade, isto em conformidade com os padrões de comportamentos éticos ou morais tidos como aceitáveis em determinada época por um determinado grupo ou determinada relação humana. A partir da Filosofia surge a Ciência, pois o Homem reorganiza as inquietações que assolam o campo das ideias e utiliza-se de experimentos para interagir com a sua própria realidade. Assim a partir da inquietação, o homem através de instrumentos e procedimentos equaciona o campo das hipóteses e exercita a razão. São organizados os padrões de pensamentos que formulam as diversas teorias agregadas ao conhecimento humano. Contudo o conhecimento científico por sua própria natureza torna-se suscetível às descobertas de novas ferramentas ou instrumentos que aprimoraram o campo da sua observação e manipulação, o que em última análise, implica tanto a ampliação quanto o questionamento de tais conhecimentos. Neste contexto a filosofia surge como "a mãe de todas as ciências".

Podemos resumir que a filosofia consiste no estudo das características mais gerais e abstratas do mundo e das categorias com que pensamos: Mente (pensar), matéria (o que sensibiliza noções como quente ou frio sobre o realismo), razão (lógica), demonstração e verdade. Pensamento vem da palavra Epistemologia "Episteme" significa "ter Ciência" "logia" significa Estudo. Didaticamente, a Filosofia divide-se em:

    * Epistemologia ou teoria do conhecimento: trata da natureza crença, da justificação e do conhecimento.
    * Ética: trata do certo e do errado, do bem e do mal.
    * Filosofia da Arte ou Estética: trata do belo.
    * Lógica: trata da preservação da verdade e dos modos de se evitar a inferência e raciocínio inválidos.
    * Metafísica ou ontologia: trata da realidade, do ser e do nada.

Definições dos filósofos sobre a filosofia

Em "Eutidemo" de Platão, é o uso do saber em proveito do homem, o que implica, 1º, posse de um conhecimento que seja o mais amplo e mais válido possível, e, 2º, o uso desse conhecimento em benefício do homem.

Para René Descartes, significa o estudo da sabedoria.

Para Thomas Hobbes, é o conhecimento causal e a utilização desse em benefício do homem.

Para Immanuel Kant, é ciência da relação do conhecimento finalidade essencial da razão humana, que é a felicidade universal; portanto, a Filosofia relaciona tudo com a sabedoria, mas através da ciência.

Para Friedrich Nietzsche, a filosofia "É a vida voluntária no meio do gelo e nas altas montanhas – a procura de tudo o que é estranho e problemático na existência, de tudo o que até agora foi banido pela moral." (Ecce Homo)

Para John Dewey, é a crítica dos valores, das crenças, das instituições, dos costumes, das políticas, no que se refere seu alcance sobre os bens ("Experience and Nature", p. 407).

Para Johann Gottlieb Fichte, é a ciência da ciência em geral.

Para Auguste Comte, é a ciência universal que deve unificar num sistema coerente os conhecimentos universais fornecidos pelas ciências particulares.

Para Bertrand Russell, a definição de "filosofia" variará segundo a filosofia que adotada. A filosofia origina-se de uma tentativa obstinada de atingir o conhecimento real. Aquilo que passa por conhecimento, na vida comum, padece de três defeitos: é convencido, incerto e, em si mesmo, contraditório. ("Dúvidas Filosóficas", p. 1)

Concepções de filosofia

Há três formas de se conceber a Filosofia:

    * 1º) Metafísica: a Filosofia é o único saber possível, as demais ciências são parte dela. Dominou na Antiguidade e Idade Média. Sua característica principal é a negação de que qualquer investigação autônoma fora da Filosofia com validade, produzindo estas um saber imperfeito, provisório. Um conhecimento é filosófico ou não é conhecimento. Desse modo, o único saber verdadeiro é o filosófico, cabendo às demais ciências o trabalho braçal de garimpar o material sobre o qual a Filosofia trabalhará, constituindo não um saber, mas um conjunto de expedientes práticos. Hegel afirmou: "uma coisa são o processo de origem e os trabalhos preparatórios de uma ciência e outra coisa é a própria ciência."
    * 2º) Positivista: o conhecimento cabe às ciências, à Filosofia cabe coordenar e unificar seus resultados. Bacon atribui à Filosofia o papel de ciência universal e mãe das outras ciências. Todo o iluminismo participou do conceito de Filosofia como conhecimento científico.

3º) Crítica: a Filosofia é juízo sobre a ciência e não conhecimento de objetos, sua tarefa é verificar a validade do saber, determinando seus limites, condições e possibilidades efetivas. Segundo essa concepção, a Filosofia não aumenta a quantidade do saber, portanto, não pode ser chamada propriamente de "conhecimento da arte".
Concepções de filosofia
Há três formas de se conceber a Filosofia:
  • 1º) Metafísica: a Filosofia é o único saber possível, as demais ciências são parte dela. Dominou na Antiguidade e Idade Média. Sua característica principal é a negação de que qualquer investigação autônoma fora da Filosofia com validade, produzindo estas um saber imperfeito, provisório. Um conhecimento é filosófico ou não é conhecimento. Desse modo, o único saber verdadeiro é o filosófico, cabendo às demais ciências o trabalho braçal de garimpar o material sobre o qual a Filosofia trabalhará, constituindo não um saber, mas um conjunto de expedientes práticos. Hegel afirmou: "uma coisa são o processo de origem e os trabalhos preparatórios de uma ciência e outra coisa é a própria ciência."
  • 2º) Positivista: o conhecimento cabe às ciências, à Filosofia cabe coordenar e unificar seus resultados. Bacon atribui à Filosofia o papel de ciência universal e mãe das outras ciências. Todo o iluminismo participou do conceito de Filosofia como conhecimento científico.
3º) Crítica: a Filosofia é juízo sobre a ciência e não conhecimento de objetos, sua tarefa é verificar a validade do saber, determinando seus limites, condições e possibilidades efetivas. Segundo essa concepção, a Filosofia não aumenta a quantidade do saber, portanto, não pode ser chamada propriamente de "conhecimento da arte".

Stuart Mill e August Comte


FILOSOFIA E CIÊNCIAS NATURAIS

O termo "positivismo", derivado do latim positum ("posto", "o que está posto diante"), designa o que se observa ou experimenta e refere-se à filosofia baseada na experiência como a única verdadeira fonte de saber real; nessa medida, o positivismo é considerado uma nova etapa do desenvolvimento do empirismo.

O positivismo fundamenta-se na ciência e na organização técnica e industrial da sociedade moderna, e considera a comprovação pelo método científico o único caminho válido para se atingir o conhecimento.

Assim, postulados como os da metafísica, que tratam de entidades como Deus, não teriam nenhum valor para o conhecimento, visto que não podem ser cientifica mente comprovados.

Essa corrente de pensamento foi fundada na França por Augusto Comte, mas o termo já havia sido empregado pelos socialistas utópicos em 1830. Segundo os positivistas, a filosofia deve limitar-se exclusivamente à organização do conhecimento científico, defendendo que o conhecimento da realidade reside necessariamente na experiência. Entretanto, algumas derivações do positivismo admitem também a validade da lógica e da matemática enquanto conhecimentos de caráter analítico, independentes da experiência.

O positivismo desenvolveu-se na trilha do empirismo, aproveitando os surpreendentes resultados dos avanços das ciências experimentais, sobretudo da química e da biologia. O surgimento dos primeiros argumentos evolucionistas e o desenvolvimento das ciências sociais, baseadas na observação dos fatos, conduziram à classificação de determinadas estruturas, que antes eram consideradas naturais, como circunstâncias culturais. Ou seja, passa-se a tentar explicar todos os componentes da realidade cultural a partir de um método próprio das ciências naturais. Temos assim o domínio da chamada relação de causalidade.

A relação de causalidade liga um efeito à sua causa, e, segundo as tendências empírico-científicas, “tudo o que acontece tem uma causa”. Assim, o cientista, ao aplicar tal regra, espera a repetição do fenômeno acontecido, baseando-se em experiências passadas.
Em termos de ciências naturais, essa relação pode ser comprovada; em termos de ciências sociais, ou seja, ao nível do comportamento humano, parece que a relação de causalidade não encontra eco, uma vez que quando se estuda o ser humano nem sempre as mesmas causas geram os mesmos efeitos. Por esse motivo, os positivistas receberam contundentes críticas, que foram rebatidas pela alegação de que esse método de generalização estaria somente a serviço do conhecimento científico, não podendo ser levado às últimas conseqüências.

Dentro do positivismo podemos distinguir três diretrizes básicas: a científica, a psicológica e a sociológica.

O POSITIVISMO DE ORIENTAÇÃO CIENTÍFICA preocupa-se fundamentalmente com o mundo físico e dá especial importância à divisão das ciências. O representante mais destacado dessa linha é o próprio Comte. O POSITIVISMO DE ORIENTAÇÃO PSICOLÓGICA considera que o homem tem uma natureza específica, que o faz único, diferente dos demais seres. Nessa linha, podemos destacar Stuart Mill. Finalmente, o POSITIVISMO DE ORIENTAÇÃO SOCIOLÓGICA ocupa-se da interação social dos homens, vivendo em sociedade e como produto dela; nesse campo, salientou-se o sociólogo francês Émile Durkheim.

JOHN STUART MILL

Filósofo e economista inglês, Stuart Mill (180673) pode ser considerado o pensador liberal de maior destaque do século XIX. É representante do positivismo psicológico por negar a existência de uma verdade universal e absoluta e afirmar que somente poderíamos conhecer o aqui e agora. Desse modo, considerou que a base do conhecimento é a percepção do momento, que se obtém por meio da vivência.

Filiado à corrente utilitarista, defendeu a concepção de que o bem e o mal seriam relativos ao momento experimentado pelo homem, tornando a utilidade o principal critério para definição do comportamento a ser seguido pelo indivíduo. Para Stuart Mill, a liberdade consistiria no direito de escolher a sua forma de vida, devendo para tal superar obstáculos impostos tanto pelo Estado quanto pela opinião coletiva.

No campo da lógica, trabalhou com o princípio da indução, também chamado de teoria dos passos do pensamento. Esse processo determina que, de acordo com a ocorrência de fenômenos constantes na natureza, é possível generalizar a experiência, ou seja, se um dado acontecimento ocorreu em algumas situações, ele deverá ocorrer novamente em casos semelhantes.

AUGUTO COMTE

A filosofia positiva é o verdadeiro estado definitivo da inteligência J humana, aquele para o qual ela sempre, e cada vez mais, tendeu. COMTE (1798-1857) nasceu em Montpellier, na França, numa modesta família católica e monarquista. Estudou na Escola Politécnica, mas foi expulso por tomar parte em um motim de alunos, num momento de mudanças políticas pós-Napoleão. Retomou a Montpellier, onde começou a estudar medicina, mas logo desistiu. Voltou a Paris em 1817, ganhando a vida como professor e escrevendo para jornais. De 1818 a 1824, foi discípulo e secretário de Saint-Simon, socialista utópico de quem posteriormente se tomou opositor.

Em 1826, deu início a um curso público de filosofia positivista, que interrompeu, abalado emocionalmente pelo fim do casamento, e retomou em 1829, mantendo-o até 1842. Casou-se novamente em 1844, mas a morte da esposa dois anos depois o fez mergulhar no misticismo.
Nos últimos anos de sua vida, após a morte de sua segunda esposa, Augusto Comte fundou a religião positiva, que direcionava toda a divindade para a própria humanidade, o seu objeto principal. Essa religião, que chegou até mesmo a estabelecer um calendário de santos, possuía cultos e cerimônias próprios, dos quais participavam, entre outros nomes de destaque na história, Adam Smith e Frederico, o Grande. O dado mais curioso era que o próprio Comte se apresentava como papa dessa religião. As sociedades positivistas difundiram-se, e foram construídos templos por todo o mundo, inclusive no Brasil, onde ainda hoje têm adeptos.

A LEI DOS TRÊS ESTADOS
A filosofia de Comte representa uma tomada de consciência a respeito do papel da reflexão filosófica no momento da divisão dos diversos ramos do conhecimento, que tivera o seu início no século XVII. O positivismo vê o papel da filosofia como o de uma espécie de gerenciadora do conhecimento, encarregada de classificar e ordenar as ciências.

Comte classificou as ciências segundo o seu objeto, abandonando a classificação subjetiva, feita de acordo com as faculdades, introduzida por Bacon e divulgada pela Enciclopédia.

O objeto, por sua vez, foi ordenado segundo graus de generalidade decrescente. Assim, a matemática tomou-se a primeira das ciências positivas, seguida pela astronomia, a física, a química, a biologia e a sociologia, com objetos progressivamente menos gerais e mais complexos.

Graças a essa nova classificação, que destacou a sociologia como ciência que tem por objeto a interação social, Comte é considerado, além de fundador do positivismo, pai da sociologia. A relevância dessa idéia está em apontar a possibilidade de se estender para o conhecimento científico as questões de natureza social.

Assim, além da sociologia, a história, a geografia e outras áreas das hoje chamadas ciências humanas tiveram importantes progressos. Entretanto, apesar desses avanços, as questões em torno da objetividade e da subjetividade colocaram em xeque inúmeras pesquisas desenvolvidas nesse campo do conhecimento. Extensas polêmicas se travaram entre aqueles que advogavam a possibilidade de total objetividade do pesquisador em seu ofício e aqueles que entendiam ser inevitável a interferência de componentes subjetivos na interpretação dos dados. Essas polêmicas, embora com menor intensidade, ainda mobilizam historiadores, geógrafos, antropólogos e economistas, além de outros pensadores.

A partir da visão do positivismo, as sociedades humanas passam por três estágios ao longo de sua evolução, processo denominado lei dos três estados.

O primeiro é o teológico, típico das comunidades ditas primitivas, em que as explicações da realidade se baseiam em forças sobrenaturais, deuses e demônios o segundo é o metafísico, estágio das sociedades que se estruturam em torno de grandes religiões, como a cristandade medieval ou as sociedades islâmicas, em que os seres sobrenaturais são substituídos por entidades abstratas, essências, idéias ou forças e, o último, o estágio positivo, no qual as sociedades se organizam com bases racionais e científicas, ou positivas, como são as sociedades industriais contemporâneas. Desenvolvendo argumentos sobre esse assunto, Comte escreveu no Curso de filosofia positiva:

O espírito humano, por sua natureza, emprega sucessivamente, em cada uma de suas investigações, três métodos de filosofar, cujo caráter é essencialmente diferente e mesmo radicalmente oposto: primeiro o método teológico, em seguida o método metafísico e, finalmente o método positivo.

No ESTADO TEOLÓGICO, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o tocam numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo.

No ESTADO METAFÍSICO, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinar para cada um uma entidade correspondente.

Enfim, no ESTADO POSITIVO, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e de similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na relação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.

No campo da moral, Comte critica a liberdade de consciência, afirmando que os homens devem se ater aos seus deveres e não aos seus direitos. “Os súditos devem obedecer e sujeitar-se aos seus governantes, colaborando para lia prosperidade, grandeza e realização da humanidade”, segundo as suas palavras.

As idéias de Comte tiveram grande aceitação, sobretudo nos meios empiristas, na França e em outras regiões do mundo sob influência da cultura francesa. Contudo, ao desenvolver o misticismo em suas teses, na última etapa de seu pensamento, Comte encontrou opositores; assim, ocorreu uma divisão entre os positivistas ortodoxos, que permaneceram concordantes com as idéias iniciais, expressas principalmente no CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA; e os dissidentes, denominados simplesmente positivistas.